segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ao meu lado.

- Posso te dizer uma coisa?
- Pode.
- Tô morrendo de vergonha, mas vou dizer.
- Hum.
- (risos) Acho que bebi demais.
- É só isso? Pois eu bebi demais também. Acho até que esse chão balança demais para um bar.
- Não é isso. (risos)
- Deve ter bebido muito mesmo. Consegue nem falar.
- Tô muito afim de ter você. Vê que doido.
- Oi?! (gargalha)
- Falei. Pronto. (respira fundo se recompondo) Falei e agora é contigo.
- Sei lá...
- Puff! Esquece, pira minha. (toma um gole de cerveja)
- É... Acho que bebemos demais...


(Silêncio)


- E se não tivéssemos? Se eu dissesse sem ter bebido?
- Ih! Vai instigar mesmo o assunto?
- Fala. Custa nada.
- Você bebeu demais, deixa disso.
- Tá bom, então. Garçom, mais uma e a conta, por favor.
- Deixa que eu pago. Convidei.
- Agora quer dar uma de cavalheiro. Pra cima de mim? (risos)
- Posso querer pagar?
- A gente racha. Bebi também.
- Certo.


- Fugiu da pergunta, por quê?
- Não fugi. É que ela foi sem sentido, pra não dizer sem noção.
- Sei.
- Aí vai se chatear porque não respondi!?
- Custava nada.
- Aaaah... tsc! Vai estressar mesmo? Tava tudo muito bom.
- Fiquei com isso na cabeça.
- Desfique. A gente saiu pra distrair.
- Era só dizer sim ou não. Mas pela demora deve ser não. Deixa pra lá.
- Também não é assim.
- Então é sim?
- Não.
- Não?
- Não!
- Sabia.
- Calma, não disse não. O que não quer dizer sim.
- Que indecisão, hein? (risos)
- É você me endoidando.
- Sei. O desequilíbrio é seu e eu sou quem te endoida.
- É sim. Fica colocando palavras na minha boca.
- Estressou foi? Eu, hein!
- Ah, cala a boca!


- Vai voltar comigo?
- Posso?
- Entra, vai.
- ...


- Casa?
- A minha.
- Podia ser a da sua mãe. É mais perto.
- Foi mal. (sem graça) A minha mesmo.
- ...
- ...
- ...
- ...


- Chegamos.
- Vai subir?
- Não. Só vim deixar você e já vou indo.
- Sobe. A gente bebe mais lá em cima.
- Muita audácia minha beber e dirigir.
- Se ficar pior, você dorme aqui.
- Tem onde? Não sei...
- Deixa de besteira, sobe comigo.


- Senta. Vou ver o que tem.  – Cerveja, claro.
- Vou querer.
- Gosto. Disposição.
- Já que subi, né?
- hahaha! Verdade. Rapidão, tirar essa roupa.
- Vai.
- Cigarro?
- Sim.


- Vem pra varanda. Aqui é mais ventilado.
- Melhor mesmo. Apesar dos pesares, não gosto de casa com cheiro de cigarro.
- Nem eu.
- Calmo aqui, né?
- Sim. Uma das razões de ter alugado.
- Pega mais uma?


- Geladinha. Vira o copo.
- Não acha ruim viver só?
- A gente acostuma sabe? Tem que se virar. Às vezes é uma roupa que demora mais a ser lavada, outra é a cama que vive desforrada, os pratos na pia que esperam pra noite. Assim vai. Só não deixo o banheiro esperando.
- hehehe! Complicado, né?
- Muito. Banheiro é íntimo, a gente tem que conservar limpo.
- Verdade.


- A última.
- Posso dormir aqui mesmo? Acho que não vai dar muito certo sair assim.
- hahahaha! Besta! Pode sim.
- Valeu.
- É o mínimo. É sempre tão agradável quando a gente sai que dar a dormida é o mínimo.
- Onde vai ser?
- No chão do meu quarto. Só tenho aquele ventilador de teto. (risos)


- Tô com pena de tu.
- Relaxa, bêbado bom é aquele que dorme no chão.
- Nada disso. Toma. Pega. Veste. Melhor que dormir de calça.
- De quem é?
- Meu irmão. Veio me ajudar a pintar a sala e deixou por aqui esse calção. Acho mais confortável que calça.


- Bem melhor, não disse?
- Verdade. Ventila as partes. (gargalhando)
- Chiu! Olha o barulho, rapá!
- (Rindo abafado)
- Bocó.
- Eu... ai! Tô tendo uma... crise... (rindo com a cara do travesseiro)
- Só porque falou ‘as partes’. (rindo)
- Para! (chorando de rir)
- Te acalma e dorme.
- Ai... deve ser o sono.
- Só sono... Sei...


- Já dormiu?
- ...
- Já dormiu?
- Oi?
- Perguntei se já dormiu.
- Não, não... tava só descansando os olhos. Ri demais.
- Quer sair do chão não?
- Hein?
- É. Sai daí, vem pra cá. O cobertor dá pros dois.
- Tá, mas me respeita que eu sou de família.
- Ha! Ha! Ha! Até parece.
- Chega pra lá.
- Se eu for mais, eu caio.
- Chama e reclama.
- Vem. Assim. Mais pra lá que tem espaço.
- Quem vai cair sou eu.
- Cai não. Deixa de drama. Pronto. Cabemos.
- Melhor assim, não?
- Você tá quentinho.
- É... Deve ser.
- Gostei. Tava meio frio aqui. Me dá o braço. Me abraça.
- Posso dormir?

- Podemos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Assim foi que se conheceram. Passando pelo mesmo corredor. Não se viram nos olhos, mas suas feições de alguma forma quiseram se fazer marcantes e obtiveram êxito em seus desejos. Ele não esqueceu da boca cerrada que abafou o bom dia de pró-forma e ele não esqueceu os fios que se deixaram cair sobre a testa como que saudando o abafado bom dia de pró-forma.
Ele estava indo para o elevador e ele estava indo para a sua sala. Ele já havia largado, mas por alguma razão ficou com vontade de voltar àquele corredor e rever o que vira há pouco. Ele entrou em sua sala, mas incomodado com o que há pouco vira.
Assim se sucedeu toda a semana, eles se cruzavam e se saudavam da mesma forma. Certo dia, o abafado bom dia conseguiu se desvencilhar dos lábios cerrados e se atirou em direção do outro. Os cabelos que acenavam, foram postos de volta para que dessa vez os olhos, mais corajosos agora, pudessem ver melhor o que durante algum tempo lhes foi vetado.
De tantos bons dias e de tantas ajeitadas nos cabelos, partiram para um toque nos respectivos ombros. Dos ombros, partiram para o aperto de mãos e das mãos para um chopp após o expediente e começarem a se chamar não só pelo nome, mas por apelidos secretos foi uma curta questão de tempo.
Samuel virou samuca, Roberto virou beto e os dois viraram companheiros de cachaça.
Que fique claro: eram héteros! Namoravam, traíam, enfim, eram cúmplices das puladas de cerca. As amigas de um eram o lanchinho do outro. Héteros! Amigos, os melhores, e héteros!
O tempo passou. As noitadas perderam razão de ser. Samuca foi pego em flagra. Expulso de casa, resolveu pedir socorro ao amigo, beto. Passaram a morar juntos. Seis meses.
Samuca foi transferido.
Outra noite de farra, comemoração cheia de 'você é um irmão pra mim', 'eu te amo', 'não é porque eu estou bêbado, mas...'. Outra noite, última noite.
Um semestre foi tempo suficiente para que a casa de beto, que nunca quis casar, ficasse mais vazia que antes. As conversas, os porres, as músicas, os comentários acerca do futebol, das lutas na madrugada, da fórmula 1, das ex-namoradas que adoravam aquele filme que insistia em se repetir na TV. Da cueca molhada na pia do banheiro, o cheiro de urina característico de banheiro de homem, o gozo deixado no ralo, a toalha molhada em cima da cama, até mesmo ter que aturar macho animado pela manhã.
O que estava acontecendo de errado? Sempre morou só, independente. Agora essa de... saudade?! Absurdo!
Como assim? Nem da mãe sentia isso. Quanto mais de marmanjo!
Mas esse silêncio...

sábado, 2 de novembro de 2013

Ar condicionado

Recife quente só pede ar condicionado
No trânsito então, é uma exigência
Mas, ar condinonado, tenha paciência
Tira toda a minha sapiência
quando me obriga a tirar
do meu campo de visão o mar
na hora que eu preciso te ligar
para não virar mar.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Casamento

Conheciam-se há muito tempo, desde a faculdade. Andavam com os mesmos amigos, gostavam de coisas semelhantes e até discutiam quando as opiniões divergiam. Até que chegou o amor e não tiveram como se desvencilhar dele. Roberto começa a perceber em Márcia uma personalidade que se destacava das demais, tudo o que ela fazia tinha um quê de diferente e chamativo ao mesmo tempo. Sabia como comover sem esforço.

Ele muito aí para e ela nem percebeu, mal sabia ele que ela já o notava desde o início do curso. Amigos em comum deram os empurrões iniciais para que a dupla virasse casal. Até que chegou o dia da junção durante o aniversário de Márcia justo na hora do bolo. Quando o famoso questionamento sobre o primeiro pedaço de bolo foi feito, ela o deu a Roberto e ainda se declarou causando comoção nas pessoas da festa e aumentou ainda mais o motivo de comemoração. A partir daquele dia eles viraram o casal modelo para os amigos, sempre que havia um problema conjugal todos corriam para lhes contar o problema em busca de uma orientação. Era muito engraçado, sempre eram vistos juntos, quando vistos sós logo se perguntava pelo outro.

Terminaram a faculdade, pouco tempo noivaram. Arranjaram emprego na mesma empresa, ficaram muito amigos de Josué, o chefe deles. Josué passaria a ser mais um naquela casa e eles passariam a ser mais dois na casa de Josué. Roberto e Josué criaram uma simpatia absurda um pelo outro e se tornaram amigos de infância, Márcia sempre muito comunicativa, também fazia parte da rotina de conversa da nova dupla de amigos.

Resolveram casar, Márcia e Roberto casariam em breve, um casamento pela manhã, igreja, padre, padrinhos, madrinhas, familiares, os amigos de sempre, os amigos do trabalho, tudo estava planejado. Roberto não cabia de ansiedade, Márcia passava horas na internet escolhendo modelo de vestido, Roberto consultava Josué sempre que podia sobre como surpreender Márcia no dia do casamento, Josué prometeu dar ao casal de noivos amigos dele a hospedagem para a lua de mel, bastava dizer onde.

Tudo certo para o casamento, todas as presenças confirmadas, Roberto e Márcia tinham até enviado fotos de momentos do casal para ser expostos na recepção em projeções para que os convidados percebessem como eles eram felizes e como todos os que ali estavam possuíam um pouco de responsabilidade pelo casal ser tão feliz.

Porém, o bom convívio não pôde impedir a desconfiança repentina de Roberto com Josué, a amizade de sempre sofreu um repentino abalo a partir do momento em que Josué começou a se dispor em ajudar a noiva no que precisasse para que o dia do casal saísse perfeito. Roberto questiona a futura a esposa sobre o dia, o que tem feito, com quem, por que não ligou, entre outras coisas que um homem ciumento faz. Ela estranhando tudo aquilo lhe jura amor eterno e fidelidade extrema. Ele aceita e diz que a fará uma enorme surpresa neste dia em que eles serão definitivamente marido e mulher. Ela apenas sorri e vai para o banho.

Chega finalmente o dia tão esperado por todos os convidados e pelo feliz casal. Casam pela manhã com padre, padrinhos e madrinhas no altar, nas primeiras filas os amigos da faculdade, do trabalho, tudo como planejado... Arroz na saída, mais festa na recepção, champanhes estourados, fogos, muita música e comida.

Cumprimentando todos com um sorriso largo no rosto, Márcia pergunta-se onde está Roberto, com a tal surpresa? Talvez... Ela também teria uma surpresa para ele...

Passam-se alguns minutos e o mistério se revela, Roberto de arma em punho esbraveja para todos que casou com uma adúltera e que a festa teria o fim que merecia. Com um tiro certeiro no meio da testa, mata Márcia e com um na têmpora direita se mata deixando uma única questão: por quê?

Vivo!

Acorda, sai, volta, deita e acorda! Ciclo infinito.

sábado, 17 de julho de 2010

Ah, o perfume... Mas AQUELE perfume!

Saiu do interior, veio tentar a vida na capital, casou, teve filhos, criou-os, quando crescidos começaram a pedir coisas. Camisas de marcas, bermudas da moda, tênis mais moderno que tiver na loja. O mais velho, que namorava há algum tempo, queria um perfume, queria impressionar a namorada, mostrar que além de ser o amor da vida dela, era cheiroso pra caramba. Ela atendeu, meio precavida, duvidava do gosto do filho. Enquanto ele experimentava alguns, ela experimentou uns femininos. Não era do seu costume usar perfumes, dizia ser alérgica. Na verdade ela não queria gastar dinheiro com tal luxo, dizia que perfume demorava na mão dela porque mal usava e já que mal usava, melhor nem usá-lo. Foi quando sentiu no ar o aroma que marcaria sua vida. Que cheiro bom era aquele? Amadeirado, suave, feminino. Cheiro de gente rica, ela pensou. E logo o identificou, pegou o frasco, cheirou pelo buraquinho... aquela fragrância deu voltas na sua cabeça, nunca mais esqueceria daquela sensação boa. Aproveitou o vacilo da vendedora e pôs nos pulsos e nas dobras dos cotovelos. Saiu da loja com a sensação boa de quem exala um perfume marcante. Sensação boa de que vai perfumar os lugares por onde passar.
Chegou em casa e só falava no tal perfume. Como era bom...
O filho mais novo precisou de um perfume, queria cheirar bem também. Arrumou uma namorada, queria marcar o território com um perfume marcante. Foram à mesma loja, ele foi buscar o dele e ela, a mãe, foi correndo na prateleira feminina e experimentou novamente o tal perfume como se nunca tivesse experimentado antes. A vendedora ofereceu, disse que ela aproveitasse e levasse juntamente com o do caçula. Recusou, disse novamente que era alérgica, chiou diante do preço do objeto de desejo. Foram embora.
Aniversário da primeira nora. Deu de presente o tal perfume. Com uma dor no coração por não tê-lo, mas deu por saber que qualquer mulher adoraria ganhar um desses. A nora, claro, elogiou muito o perfume, que por acaso seria o seu de sempre a partir daquele dia. Ela, mais uma vez fingindo mostrar o cheiro daquela preciosidade, colocou o perfume no pulso e na dobra do cotovelo. E ficaram a noite toda, sogra e nora, cheirando igual, enchendo a sala com aquele aroma enfeitiçador. Sempre sendo elogiadas, cada uma no seu canto.
O mais velho pensa em mudar o perfume para a festa de noivado, a noiva diz estar enjoada do mesmo cheiro, disse que será ela a próxima a dar-lhe um novo perfume. A mãe do noivo, por dentro, perde a esperança de sentir mais uma vez o cheiro que tanto lhe agrada. O tempo passa, ela sempre se resguardando de se dar o tão pretendido presente. Em seu aniversário, os filhos lhe dão sempre um ramalhete ou de rosa, ou de flores do campo junto com algo exotérico, ou um livro de auto-ajuda, ou livro espírita, ou apenas o ramalhete mesmo. O ano que mais diferenciou um pouco foi o que ela recebeu este mesmo presente, mas das mãos da neta, que agora já falava bem pra dizer “feliz aniversário, vovó” e andava com segurança o suficiente para carregar sozinha o ramalhete. Esse ano ela não aguentou e foi às lágrimas.
E assim foi, ano ia e ano vinha, ela sempre passando na loja do tal perfume, experimentava mais um pouco. Não levava porque era alérgica, porque não costumava usar o perfume, porque usava pouco e por isso era melhor nem levar.
Sem mais esperar, o caçula, mais arteiro e observador dos dois filhos, percebeu a repetição do ato ensaiado há anos e resolveu surpreender. Sem mais, sem menos, disse ter passado no shopping para pagar contas, reclamou da fila do banco, reclamou do salário e reclamou que demorou a ser atendido na loja de perfumes, a mesma que vendia o eterno objeto de experimento. E de repente, da bolsa, puxa o dito cujo e diz que é dela, diz que ela usará sempre que for ao salão, à casa da nora, ao shopping, ao supermercado, onde for. Ela o chama de louco, diz que não precisava e todo aquele discurso de quem recebe algo que quer muito, mas finge não querer. Disse que guardaria para ocasiões especiais.
À noite, quando todos estão dormindo, ela pôs o perfume. Se imaginou em uma festa dessas bem pomposas que ela lê na coluna social. Todos admirados com o aroma que ela exala quando passa pelas pessoas, cumprimentando uma a uma, claro. Depois se remete à festa em família, àquele momento em que todos se juntam em um almoço na casa de algum irmão e contam o que têm feito, como estão os filhos, os planos, essas coisas que a gente sabe. O assunto da mesa é o perfume, qual é, onde vende, comprou ou ganhou? E ela toda cerimoniosa explica como ele é bom, há quanto tempo queria, como as pessoas se encantam com aquele cheiro bom...
À noite antes de dormir, todos os dias, ela dá uma borrifada atrás das orelhas, nessa parte do pescoço entre a orelha e o cabelo, e vai dormir. Dorme bem, acorda de rosto inchado de tanto dormir.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Idades

Ela 14, ele 24. Ela aluna, ele professor. Ela 8ª série, ele graduado. Ela adora Mallu Magalhães, ele Los Hermanos. Ambos adoram literatura. Ambos adoram teatro. Ele estuda texto dramático e tem um blog de contos, ela faz aulas de teatro e tem um blog de poemas. Ela toca violão, ele gosta de ouvir. Ele mostrou a ela alguns músicos que ele gosta, ela mostrou os dela. Eles combinam muito. Ambos falam inglês. Ambos pensam em um dia ir à Londres. Ambos gostam de stand up comedy. Ela 14, ele 24. Ela gosta de Lady Gaga, ele de Strokes. Ela vai fazer quinze anos que vem e ganhará uma viagem para a Disney, ele nunca sentiu vontade de fazer uma viagem dessas. Eles se gostam, ela tem 14 e ele 24.