sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Assim foi que se conheceram. Passando pelo mesmo corredor. Não se viram nos olhos, mas suas feições de alguma forma quiseram se fazer marcantes e obtiveram êxito em seus desejos. Ele não esqueceu da boca cerrada que abafou o bom dia de pró-forma e ele não esqueceu os fios que se deixaram cair sobre a testa como que saudando o abafado bom dia de pró-forma.
Ele estava indo para o elevador e ele estava indo para a sua sala. Ele já havia largado, mas por alguma razão ficou com vontade de voltar àquele corredor e rever o que vira há pouco. Ele entrou em sua sala, mas incomodado com o que há pouco vira.
Assim se sucedeu toda a semana, eles se cruzavam e se saudavam da mesma forma. Certo dia, o abafado bom dia conseguiu se desvencilhar dos lábios cerrados e se atirou em direção do outro. Os cabelos que acenavam, foram postos de volta para que dessa vez os olhos, mais corajosos agora, pudessem ver melhor o que durante algum tempo lhes foi vetado.
De tantos bons dias e de tantas ajeitadas nos cabelos, partiram para um toque nos respectivos ombros. Dos ombros, partiram para o aperto de mãos e das mãos para um chopp após o expediente e começarem a se chamar não só pelo nome, mas por apelidos secretos foi uma curta questão de tempo.
Samuel virou samuca, Roberto virou beto e os dois viraram companheiros de cachaça.
Que fique claro: eram héteros! Namoravam, traíam, enfim, eram cúmplices das puladas de cerca. As amigas de um eram o lanchinho do outro. Héteros! Amigos, os melhores, e héteros!
O tempo passou. As noitadas perderam razão de ser. Samuca foi pego em flagra. Expulso de casa, resolveu pedir socorro ao amigo, beto. Passaram a morar juntos. Seis meses.
Samuca foi transferido.
Outra noite de farra, comemoração cheia de 'você é um irmão pra mim', 'eu te amo', 'não é porque eu estou bêbado, mas...'. Outra noite, última noite.
Um semestre foi tempo suficiente para que a casa de beto, que nunca quis casar, ficasse mais vazia que antes. As conversas, os porres, as músicas, os comentários acerca do futebol, das lutas na madrugada, da fórmula 1, das ex-namoradas que adoravam aquele filme que insistia em se repetir na TV. Da cueca molhada na pia do banheiro, o cheiro de urina característico de banheiro de homem, o gozo deixado no ralo, a toalha molhada em cima da cama, até mesmo ter que aturar macho animado pela manhã.
O que estava acontecendo de errado? Sempre morou só, independente. Agora essa de... saudade?! Absurdo!
Como assim? Nem da mãe sentia isso. Quanto mais de marmanjo!
Mas esse silêncio...

sábado, 2 de novembro de 2013

Ar condicionado

Recife quente só pede ar condicionado
No trânsito então, é uma exigência
Mas, ar condinonado, tenha paciência
Tira toda a minha sapiência
quando me obriga a tirar
do meu campo de visão o mar
na hora que eu preciso te ligar
para não virar mar.