Saiu do interior, veio tentar a vida na capital, casou, teve filhos, criou-os, quando crescidos começaram a pedir coisas. Camisas de marcas, bermudas da moda, tênis mais moderno que tiver na loja. O mais velho, que namorava há algum tempo, queria um perfume, queria impressionar a namorada, mostrar que além de ser o amor da vida dela, era cheiroso pra caramba. Ela atendeu, meio precavida, duvidava do gosto do filho. Enquanto ele experimentava alguns, ela experimentou uns femininos. Não era do seu costume usar perfumes, dizia ser alérgica. Na verdade ela não queria gastar dinheiro com tal luxo, dizia que perfume demorava na mão dela porque mal usava e já que mal usava, melhor nem usá-lo. Foi quando sentiu no ar o aroma que marcaria sua vida. Que cheiro bom era aquele? Amadeirado, suave, feminino. Cheiro de gente rica, ela pensou. E logo o identificou, pegou o frasco, cheirou pelo buraquinho... aquela fragrância deu voltas na sua cabeça, nunca mais esqueceria daquela sensação boa. Aproveitou o vacilo da vendedora e pôs nos pulsos e nas dobras dos cotovelos. Saiu da loja com a sensação boa de quem exala um perfume marcante. Sensação boa de que vai perfumar os lugares por onde passar.
Chegou em casa e só falava no tal perfume. Como era bom...
O filho mais novo precisou de um perfume, queria cheirar bem também. Arrumou uma namorada, queria marcar o território com um perfume marcante. Foram à mesma loja, ele foi buscar o dele e ela, a mãe, foi correndo na prateleira feminina e experimentou novamente o tal perfume como se nunca tivesse experimentado antes. A vendedora ofereceu, disse que ela aproveitasse e levasse juntamente com o do caçula. Recusou, disse novamente que era alérgica, chiou diante do preço do objeto de desejo. Foram embora.
Aniversário da primeira nora. Deu de presente o tal perfume. Com uma dor no coração por não tê-lo, mas deu por saber que qualquer mulher adoraria ganhar um desses. A nora, claro, elogiou muito o perfume, que por acaso seria o seu de sempre a partir daquele dia. Ela, mais uma vez fingindo mostrar o cheiro daquela preciosidade, colocou o perfume no pulso e na dobra do cotovelo. E ficaram a noite toda, sogra e nora, cheirando igual, enchendo a sala com aquele aroma enfeitiçador. Sempre sendo elogiadas, cada uma no seu canto.
O mais velho pensa em mudar o perfume para a festa de noivado, a noiva diz estar enjoada do mesmo cheiro, disse que será ela a próxima a dar-lhe um novo perfume. A mãe do noivo, por dentro, perde a esperança de sentir mais uma vez o cheiro que tanto lhe agrada. O tempo passa, ela sempre se resguardando de se dar o tão pretendido presente. Em seu aniversário, os filhos lhe dão sempre um ramalhete ou de rosa, ou de flores do campo junto com algo exotérico, ou um livro de auto-ajuda, ou livro espírita, ou apenas o ramalhete mesmo. O ano que mais diferenciou um pouco foi o que ela recebeu este mesmo presente, mas das mãos da neta, que agora já falava bem pra dizer “feliz aniversário, vovó” e andava com segurança o suficiente para carregar sozinha o ramalhete. Esse ano ela não aguentou e foi às lágrimas.
E assim foi, ano ia e ano vinha, ela sempre passando na loja do tal perfume, experimentava mais um pouco. Não levava porque era alérgica, porque não costumava usar o perfume, porque usava pouco e por isso era melhor nem levar.
Sem mais esperar, o caçula, mais arteiro e observador dos dois filhos, percebeu a repetição do ato ensaiado há anos e resolveu surpreender. Sem mais, sem menos, disse ter passado no shopping para pagar contas, reclamou da fila do banco, reclamou do salário e reclamou que demorou a ser atendido na loja de perfumes, a mesma que vendia o eterno objeto de experimento. E de repente, da bolsa, puxa o dito cujo e diz que é dela, diz que ela usará sempre que for ao salão, à casa da nora, ao shopping, ao supermercado, onde for. Ela o chama de louco, diz que não precisava e todo aquele discurso de quem recebe algo que quer muito, mas finge não querer. Disse que guardaria para ocasiões especiais.
À noite, quando todos estão dormindo, ela pôs o perfume. Se imaginou em uma festa dessas bem pomposas que ela lê na coluna social. Todos admirados com o aroma que ela exala quando passa pelas pessoas, cumprimentando uma a uma, claro. Depois se remete à festa em família, àquele momento em que todos se juntam em um almoço na casa de algum irmão e contam o que têm feito, como estão os filhos, os planos, essas coisas que a gente sabe. O assunto da mesa é o perfume, qual é, onde vende, comprou ou ganhou? E ela toda cerimoniosa explica como ele é bom, há quanto tempo queria, como as pessoas se encantam com aquele cheiro bom...
À noite antes de dormir, todos os dias, ela dá uma borrifada atrás das orelhas, nessa parte do pescoço entre a orelha e o cabelo, e vai dormir. Dorme bem, acorda de rosto inchado de tanto dormir.
Chegou em casa e só falava no tal perfume. Como era bom...
O filho mais novo precisou de um perfume, queria cheirar bem também. Arrumou uma namorada, queria marcar o território com um perfume marcante. Foram à mesma loja, ele foi buscar o dele e ela, a mãe, foi correndo na prateleira feminina e experimentou novamente o tal perfume como se nunca tivesse experimentado antes. A vendedora ofereceu, disse que ela aproveitasse e levasse juntamente com o do caçula. Recusou, disse novamente que era alérgica, chiou diante do preço do objeto de desejo. Foram embora.
Aniversário da primeira nora. Deu de presente o tal perfume. Com uma dor no coração por não tê-lo, mas deu por saber que qualquer mulher adoraria ganhar um desses. A nora, claro, elogiou muito o perfume, que por acaso seria o seu de sempre a partir daquele dia. Ela, mais uma vez fingindo mostrar o cheiro daquela preciosidade, colocou o perfume no pulso e na dobra do cotovelo. E ficaram a noite toda, sogra e nora, cheirando igual, enchendo a sala com aquele aroma enfeitiçador. Sempre sendo elogiadas, cada uma no seu canto.
O mais velho pensa em mudar o perfume para a festa de noivado, a noiva diz estar enjoada do mesmo cheiro, disse que será ela a próxima a dar-lhe um novo perfume. A mãe do noivo, por dentro, perde a esperança de sentir mais uma vez o cheiro que tanto lhe agrada. O tempo passa, ela sempre se resguardando de se dar o tão pretendido presente. Em seu aniversário, os filhos lhe dão sempre um ramalhete ou de rosa, ou de flores do campo junto com algo exotérico, ou um livro de auto-ajuda, ou livro espírita, ou apenas o ramalhete mesmo. O ano que mais diferenciou um pouco foi o que ela recebeu este mesmo presente, mas das mãos da neta, que agora já falava bem pra dizer “feliz aniversário, vovó” e andava com segurança o suficiente para carregar sozinha o ramalhete. Esse ano ela não aguentou e foi às lágrimas.
E assim foi, ano ia e ano vinha, ela sempre passando na loja do tal perfume, experimentava mais um pouco. Não levava porque era alérgica, porque não costumava usar o perfume, porque usava pouco e por isso era melhor nem levar.
Sem mais esperar, o caçula, mais arteiro e observador dos dois filhos, percebeu a repetição do ato ensaiado há anos e resolveu surpreender. Sem mais, sem menos, disse ter passado no shopping para pagar contas, reclamou da fila do banco, reclamou do salário e reclamou que demorou a ser atendido na loja de perfumes, a mesma que vendia o eterno objeto de experimento. E de repente, da bolsa, puxa o dito cujo e diz que é dela, diz que ela usará sempre que for ao salão, à casa da nora, ao shopping, ao supermercado, onde for. Ela o chama de louco, diz que não precisava e todo aquele discurso de quem recebe algo que quer muito, mas finge não querer. Disse que guardaria para ocasiões especiais.
À noite, quando todos estão dormindo, ela pôs o perfume. Se imaginou em uma festa dessas bem pomposas que ela lê na coluna social. Todos admirados com o aroma que ela exala quando passa pelas pessoas, cumprimentando uma a uma, claro. Depois se remete à festa em família, àquele momento em que todos se juntam em um almoço na casa de algum irmão e contam o que têm feito, como estão os filhos, os planos, essas coisas que a gente sabe. O assunto da mesa é o perfume, qual é, onde vende, comprou ou ganhou? E ela toda cerimoniosa explica como ele é bom, há quanto tempo queria, como as pessoas se encantam com aquele cheiro bom...
À noite antes de dormir, todos os dias, ela dá uma borrifada atrás das orelhas, nessa parte do pescoço entre a orelha e o cabelo, e vai dormir. Dorme bem, acorda de rosto inchado de tanto dormir.