sábado, 17 de julho de 2010

Ah, o perfume... Mas AQUELE perfume!

Saiu do interior, veio tentar a vida na capital, casou, teve filhos, criou-os, quando crescidos começaram a pedir coisas. Camisas de marcas, bermudas da moda, tênis mais moderno que tiver na loja. O mais velho, que namorava há algum tempo, queria um perfume, queria impressionar a namorada, mostrar que além de ser o amor da vida dela, era cheiroso pra caramba. Ela atendeu, meio precavida, duvidava do gosto do filho. Enquanto ele experimentava alguns, ela experimentou uns femininos. Não era do seu costume usar perfumes, dizia ser alérgica. Na verdade ela não queria gastar dinheiro com tal luxo, dizia que perfume demorava na mão dela porque mal usava e já que mal usava, melhor nem usá-lo. Foi quando sentiu no ar o aroma que marcaria sua vida. Que cheiro bom era aquele? Amadeirado, suave, feminino. Cheiro de gente rica, ela pensou. E logo o identificou, pegou o frasco, cheirou pelo buraquinho... aquela fragrância deu voltas na sua cabeça, nunca mais esqueceria daquela sensação boa. Aproveitou o vacilo da vendedora e pôs nos pulsos e nas dobras dos cotovelos. Saiu da loja com a sensação boa de quem exala um perfume marcante. Sensação boa de que vai perfumar os lugares por onde passar.
Chegou em casa e só falava no tal perfume. Como era bom...
O filho mais novo precisou de um perfume, queria cheirar bem também. Arrumou uma namorada, queria marcar o território com um perfume marcante. Foram à mesma loja, ele foi buscar o dele e ela, a mãe, foi correndo na prateleira feminina e experimentou novamente o tal perfume como se nunca tivesse experimentado antes. A vendedora ofereceu, disse que ela aproveitasse e levasse juntamente com o do caçula. Recusou, disse novamente que era alérgica, chiou diante do preço do objeto de desejo. Foram embora.
Aniversário da primeira nora. Deu de presente o tal perfume. Com uma dor no coração por não tê-lo, mas deu por saber que qualquer mulher adoraria ganhar um desses. A nora, claro, elogiou muito o perfume, que por acaso seria o seu de sempre a partir daquele dia. Ela, mais uma vez fingindo mostrar o cheiro daquela preciosidade, colocou o perfume no pulso e na dobra do cotovelo. E ficaram a noite toda, sogra e nora, cheirando igual, enchendo a sala com aquele aroma enfeitiçador. Sempre sendo elogiadas, cada uma no seu canto.
O mais velho pensa em mudar o perfume para a festa de noivado, a noiva diz estar enjoada do mesmo cheiro, disse que será ela a próxima a dar-lhe um novo perfume. A mãe do noivo, por dentro, perde a esperança de sentir mais uma vez o cheiro que tanto lhe agrada. O tempo passa, ela sempre se resguardando de se dar o tão pretendido presente. Em seu aniversário, os filhos lhe dão sempre um ramalhete ou de rosa, ou de flores do campo junto com algo exotérico, ou um livro de auto-ajuda, ou livro espírita, ou apenas o ramalhete mesmo. O ano que mais diferenciou um pouco foi o que ela recebeu este mesmo presente, mas das mãos da neta, que agora já falava bem pra dizer “feliz aniversário, vovó” e andava com segurança o suficiente para carregar sozinha o ramalhete. Esse ano ela não aguentou e foi às lágrimas.
E assim foi, ano ia e ano vinha, ela sempre passando na loja do tal perfume, experimentava mais um pouco. Não levava porque era alérgica, porque não costumava usar o perfume, porque usava pouco e por isso era melhor nem levar.
Sem mais esperar, o caçula, mais arteiro e observador dos dois filhos, percebeu a repetição do ato ensaiado há anos e resolveu surpreender. Sem mais, sem menos, disse ter passado no shopping para pagar contas, reclamou da fila do banco, reclamou do salário e reclamou que demorou a ser atendido na loja de perfumes, a mesma que vendia o eterno objeto de experimento. E de repente, da bolsa, puxa o dito cujo e diz que é dela, diz que ela usará sempre que for ao salão, à casa da nora, ao shopping, ao supermercado, onde for. Ela o chama de louco, diz que não precisava e todo aquele discurso de quem recebe algo que quer muito, mas finge não querer. Disse que guardaria para ocasiões especiais.
À noite, quando todos estão dormindo, ela pôs o perfume. Se imaginou em uma festa dessas bem pomposas que ela lê na coluna social. Todos admirados com o aroma que ela exala quando passa pelas pessoas, cumprimentando uma a uma, claro. Depois se remete à festa em família, àquele momento em que todos se juntam em um almoço na casa de algum irmão e contam o que têm feito, como estão os filhos, os planos, essas coisas que a gente sabe. O assunto da mesa é o perfume, qual é, onde vende, comprou ou ganhou? E ela toda cerimoniosa explica como ele é bom, há quanto tempo queria, como as pessoas se encantam com aquele cheiro bom...
À noite antes de dormir, todos os dias, ela dá uma borrifada atrás das orelhas, nessa parte do pescoço entre a orelha e o cabelo, e vai dormir. Dorme bem, acorda de rosto inchado de tanto dormir.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Idades

Ela 14, ele 24. Ela aluna, ele professor. Ela 8ª série, ele graduado. Ela adora Mallu Magalhães, ele Los Hermanos. Ambos adoram literatura. Ambos adoram teatro. Ele estuda texto dramático e tem um blog de contos, ela faz aulas de teatro e tem um blog de poemas. Ela toca violão, ele gosta de ouvir. Ele mostrou a ela alguns músicos que ele gosta, ela mostrou os dela. Eles combinam muito. Ambos falam inglês. Ambos pensam em um dia ir à Londres. Ambos gostam de stand up comedy. Ela 14, ele 24. Ela gosta de Lady Gaga, ele de Strokes. Ela vai fazer quinze anos que vem e ganhará uma viagem para a Disney, ele nunca sentiu vontade de fazer uma viagem dessas. Eles se gostam, ela tem 14 e ele 24.
Há muito tempo trabalhava naquele restaurante. Conhecido por ser acessível por qualquer um que quisesse tirar alguma dúvida, qualquer um que quisesse pedir sugestão de pratos ou vinhos, adorava falar com os clientes e saber se estão gostando, se têm sugestão de melhora. Era formado nem há tanto tempo, mas sabia o que fazia e porque estava ali. Por esse motivo era sempre indicado a ser monitor de algum aluno de gastronomia que quisesse estagiar naquela cozinha. Ele tinha o maior orgulho de mostrar toda a cozinha, fazia questão de pelo menos deixar na mão do estagiário um prato a ser servido no salão, tudo sob sua supervisão, claro. Era um rei naquele espaço e seus auxiliares seu exército, seus fiéis servos nos quais podia confiar cegamente.
Certo dia chega mais um estagiário, um rapaz calado, meio tímido, não sabia bem se queria mesmo ser cozinheiro, começou o curso, gostou e estava determinado a pelo menos concluí-lo. Muito bem, conheceu a cozinha como de praxe pelo tal cozinheiro. Da cozinha em si até a câmara frigorífica, passando pelo estoque de vegetais. Conheceu a adega, conheceu alguns garçons, o maitre e claro, o proprietário do restaurante.
Com o passar do estágio conversavam muito, o cozinheiro mais expansivo sempre contando piadas, fazendo graça com a comida. Cozinha é um ambiente tenso demais, devemos deixá-la mais leve e feliz senão passa pra comida – dizia com ar professoral o cozinheiro – os clientes podem reclamar do mau gosto. O estagiário aprendia tudo com muita vontade, estava encantado com o professor. Ficaram amigos, iam às palestras, trocavam indicações de livros, iam à casa do outro, cozinhavam juntos, vararam algumas noites nessas farras culinárias.
Chegado o fim do tempo de estágio, todos se despediram do novo parceiro de cozinha, sim, ele conquistou todos mesmo falando pouco. Mas entre o cozinheiro e ele ficou mais difícil a separação, ficaram muito amigos. As farras, as trocas de informações passariam a ser por e-mail, até ficou a promessa do envio de um convite da formatura. O dia ficou triste naquela cozinha, a comida saiu meio queimada, a carne passou do ponto, a sopa saiu salgada demais, estava claro que algo não ia bem. Pediu para ir para casa, recebeu a permissão.
Na faculdade, as aulas pareciam chatas demais, tudo o que o professor falava parecia vir de outra voz, ria sozinho olhando para a parede, lembrava das piadas. Levantou-se, foi para casa. Pensou em passar no restaurante, desistiu. Desistiu da casa, foi para um bar próximo. Ficou por lá, tomando água mesmo, foi só para distrair um pouco. Apesar de tímido, como todo jovem, inconscientemente usou de sua impulsividade e foi ao restaurante. Chegando lá, mentiu parcialmente, contou da chatice da aula, sentiu saudade e foi vê-los. Perguntou pelo cozinheiro, foi para casa. Que pena, queria vê-lo também. – disse o rapaz – Outro dia passo e dou abraço nele. Mal saiu do restaurante, dobrando a esquina, partiu em disparada para a casa do amigo. Ao chegar, viu o apartamento escuro, apenas uma pequena luz passava a impressão de ter alguém em casa. Pensou que seria melhor usar o interfone, mas o portão estava aberto, subiu em disparada pulando de dois em dois degraus, chegou à porta, titubeou se batia ou não. Ouviu que tocava uma música que dizia algo sobre sonhar, desilusão que dói no coração de quem sonha. Mesmo sem entender bateu na porta. Aqueles segundo pareceram horas e quando finalmente ela foi aberta pareceu a solução da aflição, os olhos se viram, um brilhando de ansiedade e o outro, dentro do apartamento, vermelho e molhado de choro. Abraçaram-se como se fizesse muito tempo que se viram, como se anos os tivesse separado, como se estivessem a espera um pelo outro há muito tempo.
Beijaram-se, beijaram-se sem se importar se outro recusaria, sem se importar com a porta ainda aberta, sem se importar se estariam enganados em relação àquele sentimento, sem se importar se era noite ou dia, apenas se beijaram. E choraram, beijaram-se mais, abraçaram-se e em pé mesmo o estagiário jogou sua bolsa no chão, perto do sofá. Como se queriam, a porta do apartamento foi fechada e aquela situação foi boa para os dois, a aflição acabou e o choro passou de angustiante para o de alegria.

Música e mulheres...

Sábado à noite, por volta das 23h, depois de terminar suas obrigações daquele dia, começa a ter um momento seu e reflete sobre o que tem feito ultimamente: o que construiu, o emprego novo tem dado algum resultado, o curso que faz está fazendo realmente alguma diferença? As respostas são positivas, mas o que é aquele vazio que ele ainda sente todo fim do dia?
Acende o primeiro cigarro, ouve Calcanhoto, cantarola algumas músicas. A rua quase vazia, exceto por algumas senhoras sentadas à porta de suas casas conversando com as vizinhas, talvez amenidades (o mais esperado). Ele não gosta dessas senhoras, as acha muito fofoqueiras, a essa hora deveriam estar cuidando de suas vidas e não da de quem vai e de quem vem a essa hora...
E quando ouve o tão famoso 'entre por essa porta agora e diga que me adora' lhe vem logo à mente ela. Aquela chata, louca, insuportável, que adorava ler aquele best-seller terrível que se transformou naquele filme terrível. Ela achava um absurdo ele fumar aquele cigarro tão inocente, achava péssimo que ele não gostasse tanto de música clássica, que não entendesse a diferença entre um SOL e um MI, que ele nunca tivesse ouvido Jazz ou Blues e que mesmo assim dissesse gostar de Chico Buarque e Elis Regina. Ela que tinha um jeito amável de se fingir de menina, que sabia de maneira espetacular sentar-se ao seu colo, escorar-se em seu peito e sem dizer nada ganhar um beijo. Ela que sabia quando ele estava bem, que sabia que quando ele estava mal, apenas apoiar sua cabeça no ombro dele já bastava. Ela que apresentou os melhores lugares para se ouvir música na cidade, que apresentou até alguns artistas que ele gotava e que aprendeu a gostar... Ela!
Acendeu o segundo cigarro, dessa vez sentado naquela cadeira que sempre fica na varanda. O CD acabou e ele foi trocar, pôs Marisa Monte. Parecia que as mulheres que ele ouvia sabiam exatamente o que as pessoas sentem quando as ouvem, assim que pôs começa Dança da Solidão. 'Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão'. Ele olha para o som e parece não acreditar, acha que só pode ser complô das mulheres contra ele. Volta para seu cigarro. Imagina como ela estaria agora, soube que tem outro. Logo ela que o amava tanto, que fazia planos futuros, falava em filhos, passeios no parque, até que iria iniciá-los musicalmente.
Pode ser que faça, mas não os deles...
0h. Desiste de ouvir Marisa, cansou dela. Foi ouvir música clássica, escolheu Erik Satie, Gymnopedie Nº1, no piano pra ficar mais melancólico. As lembranças vieram de vez, deram-lhe vertigem. Os aniversários de namoro, eles costumavam comemorar os meses no começo, trocavam cartas cheias de desenhos fofinhos e perfumes. Após o 1º ano de namoro, assistir filme no cinema era o mesmo que nada, mal apagavam as luzes começava a agarração. No quase 2º veio a crise... ela morta de ciúme daquela intrusa mais velha, mais vivida, que sabia como enfeitiçar um homem, afinal estava noiva e falava abertamente o que fazia para segurar o noivo. Era atriz, dominava a arte que mais o chamava atenção. Ele a seguia como um sedento à fonte. Assistiam, os três, aos espetáculos da cidade, saíam juntos. Ele só falava na nova companheira de trabalho, como ela tinha facilidade de se expressar corporalmente, que dicção, que desenvoltura para imitar pessoas. Ele amava isso.
Com o tempo a novidade se tornou motivo de brigas, de mal-estares, de mentiras, de desconfiança. A atriz vai embora, eles continuam a namorar. Ela vai para o exterior passar férias, ele fica no Brasil com a família. Ela volta, eles se reencontram, ela pede tempo para pensar, ele diz que se for para dar tempo é melhor que ela termine de vez. Ela diz que houve outro na viagem, mas que não aconteceu nada. Amigo do irmão dela, músico também, os dois. Esse amigo tocava guitarra, baixo, bateria, sax, trompete e estava aprendendo oboé. Uma facada no coração. Desde então passaram a se ver menos, até se cruzavam, trocavam apenas um gélido oi. Resolveram conversar, se entenderam. Um mês depois acabam definitivamente.
Passou-se o tempo, um pouco mais de um ano, desde o fim e ele não consegue se apegar a ninguém. Deu seus pulinhos, mas fixo nenhum. Das formas mais esquisitas tentou manter algum relacionamento, mas fixo nenhum. Conheceu amigas de amigos, saiu com algumas, passou um tempo com outras, dormiu com outras outras, mas fixo nenhum.
2h. Ouvindo Bebel Gilberto e Cazuza sente que precisa dizer eu te amo para alguém.

O que é um conto?

Escrever não é fácil, ou se sabe ou não se sabe. Quando falo em escrever , falo de se ter uma ideia e passar o papel de forma literária. Não falo de texto dissertativo-argumentativo em prosa que se fala tanto m concursos públicos, dessa caretice não gosto. Gosto do que chama a atenção, do que prende, do que não dá vontade de largar até descobrir o desfecho. Daquilo que se lê em um uma assentada, daquilo que tem a ver com o leito, daquilo que tem a ver comigo, do que tem a ver com o que eu vejo, ouço falar, vivenciei de certa forma. Não pretendo responder perguntas, é um texto literário, penso em uma situação e falo com a voz do meu narrador. Perguntem a ele, ponham-no contra a parede, interroguem-no; ou então tnte preencher o vazio do meu texto com suas análises, o que faltou dizer e que de certa forma está dito. Se ficaram vazios, não foi minha intenção, escrevi com um objetivo e tentei ser o mais realista possível. O mais direto possível. Aliás, essa coisa de deixar vazios no texto não é pra mim, essas entrelinhas só se alcança com o tempo, com a prática.