terça-feira, 13 de julho de 2010

Música e mulheres...

Sábado à noite, por volta das 23h, depois de terminar suas obrigações daquele dia, começa a ter um momento seu e reflete sobre o que tem feito ultimamente: o que construiu, o emprego novo tem dado algum resultado, o curso que faz está fazendo realmente alguma diferença? As respostas são positivas, mas o que é aquele vazio que ele ainda sente todo fim do dia?
Acende o primeiro cigarro, ouve Calcanhoto, cantarola algumas músicas. A rua quase vazia, exceto por algumas senhoras sentadas à porta de suas casas conversando com as vizinhas, talvez amenidades (o mais esperado). Ele não gosta dessas senhoras, as acha muito fofoqueiras, a essa hora deveriam estar cuidando de suas vidas e não da de quem vai e de quem vem a essa hora...
E quando ouve o tão famoso 'entre por essa porta agora e diga que me adora' lhe vem logo à mente ela. Aquela chata, louca, insuportável, que adorava ler aquele best-seller terrível que se transformou naquele filme terrível. Ela achava um absurdo ele fumar aquele cigarro tão inocente, achava péssimo que ele não gostasse tanto de música clássica, que não entendesse a diferença entre um SOL e um MI, que ele nunca tivesse ouvido Jazz ou Blues e que mesmo assim dissesse gostar de Chico Buarque e Elis Regina. Ela que tinha um jeito amável de se fingir de menina, que sabia de maneira espetacular sentar-se ao seu colo, escorar-se em seu peito e sem dizer nada ganhar um beijo. Ela que sabia quando ele estava bem, que sabia que quando ele estava mal, apenas apoiar sua cabeça no ombro dele já bastava. Ela que apresentou os melhores lugares para se ouvir música na cidade, que apresentou até alguns artistas que ele gotava e que aprendeu a gostar... Ela!
Acendeu o segundo cigarro, dessa vez sentado naquela cadeira que sempre fica na varanda. O CD acabou e ele foi trocar, pôs Marisa Monte. Parecia que as mulheres que ele ouvia sabiam exatamente o que as pessoas sentem quando as ouvem, assim que pôs começa Dança da Solidão. 'Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão'. Ele olha para o som e parece não acreditar, acha que só pode ser complô das mulheres contra ele. Volta para seu cigarro. Imagina como ela estaria agora, soube que tem outro. Logo ela que o amava tanto, que fazia planos futuros, falava em filhos, passeios no parque, até que iria iniciá-los musicalmente.
Pode ser que faça, mas não os deles...
0h. Desiste de ouvir Marisa, cansou dela. Foi ouvir música clássica, escolheu Erik Satie, Gymnopedie Nº1, no piano pra ficar mais melancólico. As lembranças vieram de vez, deram-lhe vertigem. Os aniversários de namoro, eles costumavam comemorar os meses no começo, trocavam cartas cheias de desenhos fofinhos e perfumes. Após o 1º ano de namoro, assistir filme no cinema era o mesmo que nada, mal apagavam as luzes começava a agarração. No quase 2º veio a crise... ela morta de ciúme daquela intrusa mais velha, mais vivida, que sabia como enfeitiçar um homem, afinal estava noiva e falava abertamente o que fazia para segurar o noivo. Era atriz, dominava a arte que mais o chamava atenção. Ele a seguia como um sedento à fonte. Assistiam, os três, aos espetáculos da cidade, saíam juntos. Ele só falava na nova companheira de trabalho, como ela tinha facilidade de se expressar corporalmente, que dicção, que desenvoltura para imitar pessoas. Ele amava isso.
Com o tempo a novidade se tornou motivo de brigas, de mal-estares, de mentiras, de desconfiança. A atriz vai embora, eles continuam a namorar. Ela vai para o exterior passar férias, ele fica no Brasil com a família. Ela volta, eles se reencontram, ela pede tempo para pensar, ele diz que se for para dar tempo é melhor que ela termine de vez. Ela diz que houve outro na viagem, mas que não aconteceu nada. Amigo do irmão dela, músico também, os dois. Esse amigo tocava guitarra, baixo, bateria, sax, trompete e estava aprendendo oboé. Uma facada no coração. Desde então passaram a se ver menos, até se cruzavam, trocavam apenas um gélido oi. Resolveram conversar, se entenderam. Um mês depois acabam definitivamente.
Passou-se o tempo, um pouco mais de um ano, desde o fim e ele não consegue se apegar a ninguém. Deu seus pulinhos, mas fixo nenhum. Das formas mais esquisitas tentou manter algum relacionamento, mas fixo nenhum. Conheceu amigas de amigos, saiu com algumas, passou um tempo com outras, dormiu com outras outras, mas fixo nenhum.
2h. Ouvindo Bebel Gilberto e Cazuza sente que precisa dizer eu te amo para alguém.

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